O que fazem os investigadores da AGRAFr?

A chave de todas as ciências é inegavelmente o ponto de interrogação, devemos a maior parte das grandes descobertas ao: Como? E a sabedoria da vida consiste talvez em nos perguntarmos a cada momento: Porquê?

Honoré de Balzac in la Comédie Humaine

investigadoresA investigação científica está na base das maiores revoluções que a humanidade testemunhou até ao momento. No entanto, poucas são as pessoas que entendem em toda a sua extensão o que é a investigação, o que faz um investigador e qual o seu papel na sociedade. Para além disso, todos nós investimos, todos os anos, muito do nosso dinheiro em projetos de investigação e no salário dos investigadores, através dos impostos que pagamos. Atualmente, os fundos governamentais são um dos principais financiadores da investigação científica. Perceber o que faz um investigador torna-se assim uma questão de conhecer o mundo que nos rodeia bem como a nós próprios, saciar a nossa curiosidade, mas principalmente é um direito cívico como cidadãos financiadores dessa mesma investigação. 

Os principais objetivos de qualquer projeto de investigação são: a compreensão do mundo que nos rodeia e do individuo e/ou o desenvolvimento de tecnologias, que são colocadas ao serviço do nosso conforto e saúde.

E. Donnall Thomas, prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina em 1990, foi um médico norte-americano pioneiro no tratamento de cancros do sangue, como a leucemia. O seu trabalho é um exemplo perfeito de como se desenvolve um projeto de investigação e de quanto erradas são as ideias pré-concebidas de que os investigadores são pequenos génios que vivem no isolamento a ter ideias brilhantes. Para poder chegar ao desenvolvimento de uma terapia para a leucemia, Thomas e a sua equipa basearam-se no conhecimento sobre medula óssea, sistema imunitário (histocompatibilidade) e estudos de irradiação, que tinha sido gerado por outros investigadores antes dele. A partir deste conhecimento, pensou e testou (através da experimentação) várias hipóteses de possíveis metodologias para tratar leucemias. Desta experimentação (muitas vezes mal sucedida) e de longas discussões com os colegas, Thomas e a sua equipa perceberam que se destruíssem as células cancerosas da medula óssea do paciente, usando radiação ou quimioterapia, e transplantassem posteriormente medula óssea saudável de um dador compatível conseguiam uma taxa de sucesso bastante elevada na sobrevivência dos pacientes. O trabalho de Thomas e da sua equipa teve um impacto enorme na medicina, que dura até aos nossos dias. Desde 1956, quando Thomas realizou o primeiro transplante de medula óssea, milhares de vidas têm sido salvas através deste tratamento. A aplicação desta terapia é de tal forma importante que, hoje em dia, existem bases de dados mundiais com o registo de dadores de medula óssea, para que assim seja mais fácil encontrar dadores compatíveis.

método de trabalho de Thomas, chamado método científico (1-premissas, 2-hipóteses testadas através da experimentação, 3-novos conhecimentos), é largamente aplicado na investigação das ciências da vida. No entanto, nem todas as grandes descobertas cientificas resultaram de uma metodologia rigorosa, algumas foram obras de mentes bem preparadas para o acaso. Este foi o caso da descoberta da penicilina, em 1928, por Alexander Fleming, um médico escocês que estudava a bactéria  Staphylococcus aureus (uma bactéria que está na origem de infeções generalizadas). Durante as suas férias, uma das suas culturas de bactérias foi contaminada por um fungo (contaminações são um dos piores pesadelos dos cientistas!). Em vez de eliminar esta cultura, Fleming observou que à volta da colónia do fungo existia um círculo onde as bactérias não tinham conseguido crescer. A partir desta observação seguiu-se a identificação da substância produzida pelo fungo responsável pela morte da bactéria, a penicilina. Desde então, milhões de pessoas têm sido salvas por esta substância que se tornou no primeiro antibiótico a ser largamente usado com elevadas taxas de sucesso até aos nossos dias.

A par das grandes descobertas da medicina que ao longo destes anos têm permitido aos seres humanos viver mais tempo e com maior qualidade de vida, encontra-se a investigação das ciências humanas e sociais, cujo principal objetivo é a compreensão do individuo e das suas relações com os outros e com o mundo.

Daniel Kahneman é um psicólogo que ganhou o prémio Nobel da Economia em 2002. A investigação em psicologia que Kahneman fez, juntamente com o seu colaborador Amos Tversky, permitiu compreender que nossa mente está cheia de falácias, faz erros sistemáticos, e estes erros têm um impacto direto nos nossos julgamentos e tomadas de decisões. Um exemplo que Kahneman dá frequentemente e que demonstra a fragilidade do nosso raciocínio é o seguinte: se um taco e uma bola de basebol custarem $1.10 e se soubermos que o taco custa $1 mais do que a bola, quanto custa a bola? A maioria das pessoas vai sentir-se tentada a responder de imediato $0.10 (pensamento rápido) mas a resposta correta é $0.05 (à qual todos chegaríamos caso perdêssemos mais tempo a pensar na resposta). O trabalho de Kahneman e Tversky teve um impacto enorme em várias áreas, como as finanças e a economia. Ter consciência destes erros de raciocínio é extremamente importante, principalmente nas ciências económicas, onde várias decisões que podem alterar o destino de nações (ex. vendas e compras de ações) são frequentemente tomadas em contextos de stress e onde muitas vezes o raciocínio intuitivo e rápido (mais sujeito a falácias) é o que predomina. O trabalho de Kahneman e Tversky deram assim início a um novo campo da economia: a economia comportamental, hoje em dia integrada nos programas dos cursos de economia um pouco por todo o mundo.

Independentemente da área onde a investigação é feita, a curiosidade e as perguntas sobre o mundo que nos rodeia e sobre nós mesmos estão na base de todos os projetos de investigação. Tal como Balzac afirma “ A base de todas as ciências é o ponto de interrogação”. Tudo começa com uma pergunta que tem de ser respondida para que cheguemos ao conhecimento ou ao desenvolvimento tecnológico.

Em “O que fazem os investigadores da AGRAFr?” queremos dar espaço aos membros da nossa associação que fazem investigação nas mais diversas áreas para que expliquem, na primeira pessoa, o que é o seu trabalho e qual o seu papel na sociedade. Todos os meses sairá na newsletter e website uma entrevista com um membro da AGRAFr que faz investigação. Nos próximos meses entraremos nesse mundo pouco acessível ao comum dos cidadãos, pela mão dos nossos membros.

Já no próximo mês a nossa primeira entrevista a uma filósofa que faz investigação na área da empatia.

Texto: Carina Santos (investigadora no Institut Curie, Paris, França)

Ilustração: Jérémie Decalf

Para saciares a tua curiosidade:

E. Donnall Thomas
(www.nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1990/thomas-bio.html)

Alexander Fleming
(www.nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1945/fleming-bio.html)

Daniel Kahneman
(http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economic-sciences/laureates/2002/kahneman-bio.html)

Investigadores AGRAFr

Ana Roseira Rodrigues
Ana Rodrigues (Sociologia)
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  • 21 Nov 2015

O que fazem os investigadores? Qual o seu papel na sociedade? Quais as descobertas mais importantes realizadas até ao momento e o que falta ainda descobrir? Estas são algumas das questões que tentaremos responder atra

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Ana Costa (Ciências Biomédicas)
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  • 15 Oct 2015

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Vera Costa (Ciências Biomédicas)
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  • 28 Sep 2015

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Miguel Lopes (Biologia)
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  • 22 July 2015

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Nuno Marinho
Nuno Marinho (Engenharia Electrotécnica)
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  • 22 June 2015

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Simão Rocha (Biologia)
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  • 10 June 2015

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catarinaSousa
Catarina de Sousa (Psicologia do Desporto)

Catarina de Sousa (Psicologia do Desporto)

  • 27 April 2015

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Ana Antunes
Ana Antunes (Biologia)

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  • 24 March 2015

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luisa Semedo
Luísa Semedo (Filosofia)

Luísa Semedo (Filosofia)

  • 19 Feb 2015

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